sexta-feira, 22 de março de 2013

Barcelos: Concursos públicos de "alfaiate" ?



O Má Despesa recebeu o seguinte e-mail cuja partilha revela-se oportuna :

"O mail que reenvio foi remetido ao presidente da Câmara de Barcelos e refere-se a um caso concreto de um concurso para o gabinete de educação da Câmara que só pode ter como dirigente um licenciado em economia.

Envio em anexo copia dos avisos da BEP de todos os concursos abertos por esse município que noutras áreas tem pérolas semelhantes. Por exemplo, a fiscalização municipal só pode ser feita por um engenheiro topógrafo (o serviço inclui a polícia municipal...) e ser arquitecto não permite ser director do departamento de urbanismo que é reservado a engenheiros....(todos os concursos estão mal nesse domínio da especificação das habilitações).



Ex.mo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Barcelos,

(Pedia aos serviços municipais que façam a gestão deste endereço geral que este texto fosse entregue ao Ex.mo Senhor Presidente da Assembleia Municipal e aos lideres dos grupos dos Partidos políticos representados na Assembleia Municipal para conhecimento e dado que não há no site links para os seus contactos electrónicos)

Por este meio me dirijo a V. Exa. no sentido de obter esclarecimentos, fornecer documentos relativos a um concurso de selecção de dirigente publicado na Bolsa de emprego público e solicitar a intervenção de V.Exa no concurso publicado na BEP com a referencia OE201303/0109.

            Perante a formulação do aviso, em que para exercício de um posto de Direcção intermédia de 3º grau, no Gabinete de Educação desse município, se exige licenciatura em Economia, para alem de outros requisitos, excluindo sem fundamento todos os restantes licenciados noutras áreas, solicita-se a intervenção urgente de V.Exa. no sentido de corrigir os graves atropelos que nele por essa via se incluem.

            O signatário, com forte proximidade residencial ao concelho de Barcelos, poderia ponderar concorrer mas, perante a exclusividade `a licenciatura em economia, vê-se assim impedido de sequer poder exercer esse seu direito fundamental de acesso a funções públicas.
           
            Licenciado em História, com curso de qualificação em Ciências de Educação que lhe confere profissionalização para a docência (profissão que exerce desde 1995) possui ainda especialização em gestão pública (correspondente `a parte curricular do Mestrado respectivo) pela Universidade de Aveiro, curso de especialização em Administração e gestão escolar pelo Inst. Politécnico do Porto (habilitação obrigatória para exercício de funções como director de escola publica) e o Curso de Alta Direcção em Administração Publica pelo Instituto Nacional de Administração com um diploma de especialização em Marketing Publico e outro em Politicas Publicas.

            Sem pormenorizar o currículo, acresce referir que exerce desde Junho de 2007 funções como dirigente de um serviço da administração pública da área da Educação (agrupamento de escolas) primeiro como Presidente do Conselho Executivo e depois como Director e que exerceu funções dirigentes noutras instituições de ensino privadas e publicas.

            Este currículo sumário a que se poderiam juntar outros dados, aqui de referência desnecessária, permite preencher todos os requisitos do concurso, e com alguma densidade, com excepção do que resulta da exclusividade `a licenciatura em Economia. 

            Exclusividade que, além de ilegal (como se evidencia a seguir com forte sustentação) resulta ilógica (porque não se entende qual o nexo lógico do Gabinete de Educação `as questões da economia para que só os habilitados na área o possam dirigir).Dessa exclusividade (de fundamentação difícil e patente ilegalidade) resulta a exclusão do signatário cuja liberdade de concorrer fica totalmente comprimida por um acto arbitrário que nem ´e lógico nem tem base legal (havendo alias recentes intervenções do Ministério Publico a evidenciar isso, suscitando a responsabilidade penal de titulares de cargos públicos municipais).

            Assim, apela-se a V.Exa. que neste concurso (e noutros em curso com o mesmo defeito) atenda `a observação que aqui se produz, reformulando-os ou ordenando a sua reforma.

            Como adjuvante `a sustentação do que se afirma (cuja consulta parece muito relevante) remete-se a V. Exa. a seguinte informação:

           1. Links para notícias relativas a casos similares ocorridos noutros concelhos e respectivas consequencias.


          2. Texto de posição do Senhor Provedor de Justiça relativo a casos similares noutros concelhos (OFÍCIOS anexos em PDF de resposta a queixas do signatário)

            Certo de que o defeito de formulação detectado foi um lapso que brevemente será corrigido (neste e nos vários outros concursos abertos em simultâneo) apresento a V. Exa os melhores cumprimentos, "


            
           


quinta-feira, 21 de março de 2013

As remunerações dos administradores da Águas e Parque Biológico de Gaia



O Má Despesa foi espreitar os salários dos administradores da empresa municipal Águas e Parque Biológico de Gaia e descobriu que dois dos administradores têm natureza não executiva (sem funções de gestão, portanto) e que, ainda assim, auferem mais de mil euros mensais, cada um:
Conselho de Administração
Dr. José Miranda de Sousa Maciel
Presidente Executivo
Remuneração: €4.241,48
Dr. Nuno Gomes Oliveira
Vice-Presidente Não Executivo
Remuneração: €1.080,02
Eng.º Serafim Silva Martins
Administrador Executivo
Remuneração: €3.857,84
Dr. José António Bastos Cardoso
Administrador Executivo
Remuneração: €3.857,84
Dr. João Pedro Teixeira Brito da Silva
Administrador Não Executivo
Remuneração: €1.053,33

Curiosamente, Nuno Gomes Oliveira foi eleito presidente da Junta de Freguesia de Avintes. E também é interessante denotar que os estatutos desta empresa municipal determinam que "o Conselho de Administração é composto por um Presidente e dois a quatro vogais" (art.7.º) - ou seja, em nome da poupança, podiam ser apenas 2 pessoas, além do presidente. 







terça-feira, 19 de março de 2013

O edifício administrativo da Cidade Tecnológica de Paços de Ferreira (CITEC)



O município de Paços de Ferreira tem uma dívida total assumida de cerca de 50 milhões de euros. A autarquia recorreu, inclusive, ao PAEL- Programa de Apoio à Economia Local, pedindo um empréstimo no valor de 6,3 milhões de euros. Entretanto, no passado dia 7, a PFR Invest, Sociedade de Gestão Urbana- empresa municipal de Paços de Ferreira, lançou o concurso público para a construção do  edifício administrativo da Cidade Tecnológica de Paços de Ferreira (CITEC). Esta obra tem um custo (inicial) de 4.293.819.00 €.
Mais um caso em que a austeridade nada pode perante a vontade de um autarca português. 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Sever do Vouga preocupada com a entrada da vila



No passado mês de Janeiro, o município de Sever do Vouga lançou o concurso público para a empreitada do "arranjo urbanístico da entrada da Vila, que inclui a construção de uma bancada, campo de ténis, iluminação, rede de águas pluviais, pavimentos, equipamentos e zonas verdes. Esta obra tem um custo (inicial) de 450.000,00 €. 
O concelho tem 12.356 habitantes (CENSOS 2011) e, pelos vistos, não tem mais onde gastar.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Sardoal: passeios para (quase) todos



Um leitor do Má Despesa chamou a atenção para as viagens patrocinadas pela autarquia do Sardoal aos seus munícipes. 
Na reunião do passado dia 6 de Março a autarquia "aprovou a realização de uma viagem para reformados e maiores de 60 anos a esta cidade espanhola [Barcelona], em Junho, durante cinco ou seis dias, com um custo de 1.600 euros. A proposta apresentada pela maioria social-democrata justifica este passeio "considerando a importância da cidade de Barcelona no contexto ibérico e a ligação histórica de Portugal à Catalunha". A viagem para os jovens ficou marcada para Julho, durante duas semanas, começando pelas praias da Normandia, "palco da mais extraordinária ação militar da última grande guerra", e terminando em Paris, na Eurodisney. O orçamento é de 5.400 euros, mais ajudas de custo, uma vez que a deslocação conta com o apoio de alguns municípios franceses e de famílias locais que vão acolher os estudantes portugueses nas suas casas", lê-se no Rede Regional. 
O presidente da câmara municipal exerceu o seu direito de resposta, informando que "o Município de Sardoal apenas disponibiliza o transporte em autocarro" a Barcelona e que "a Viagem de Estudo não é à Eurodisney, mas sim à Costa da Normandia, local de desembarque das tropas aliadas durante a II Guerra Mundial, com passagem pelo Cemitério americano de Omaha, onde repousam os restos mortais de 9387 jovens. No regresso, os alunos visitam, de facto, a Eurodisney, durante algumas horas."

Mais um autarca a ignorar que "em ano geado, não há pão dobrado".







quinta-feira, 14 de março de 2013

As viagens a Paris da CML


E lá tropeçamos em mais uma viagem da Câmara Municipal de Lisboa a Paris. O Má Despesa já antes tinha tentado explicar à Câmara como podia poupar nas suas viagens, mas não nos querem dar ouvidos. Agora é “uma passagem aérea Lisboa/Paris/Lisboa” que custou 838,76 euros. “Uma” e apenas “uma” viagem de avião – sem alojamento ou despesas de representação incluídas.




quarta-feira, 13 de março de 2013

O caso do Jogo das Raparigas


O caso já é antigo mas vale a pena ser recuperado. A Associação Portuguesa Mulheres e Desporto organizou entre Abril de 2010 e Julho de 2012 várias iniciativas associadas ao projecto O Jogo das Raparigas, que pretendia incentivar as mulheres a jogar futebol e futsal. Os objectivos eram ambiciosos, nomeadamente o “combate à invisibilidade, às barreiras culturais e aos estereótipos, através de uma campanha centrada na apropriação e na prática deste desporto pelas raparigas” e “o empoderamento das raparigas e mulheres, numa perspectiva de consciencialização dos seus direitos”.
Este projecto custou quase 500 mil euros. Aqui encontram-se 27 ajustes directos só para pessoal, chegando esta parcela aos 450 mil euros. Há de tudo, incluindo uma pessoa que em dois anos e oito meses somou 74 mil euros. Além disso, os contratos foram feitos em 2010 mas apenas publicados em 2012. Assim vale a pena praticar desporto e promover a igualdade!


terça-feira, 12 de março de 2013

Uma Casa das Artes para Sobrado




É uma ambição de Sobrado (freguesia do concelho de Valongo com 6.727 habitantes). A Casa das Artes do Sobrado está mais próxima de ser uma realidade. Acaba de ser publicado o concurso de 176.566 euros, que irá transformar a antiga Casa do Povo numa moderna Casa das Artes. Para este espaço está prometido um núcleo museológico documental de Sobrado, onde serão promovidas exposições sobre a tradição da Bugiada, a máscara ibérica, carpintaria, ciclo de produção do linho, entre outras. As associações locais também terão aqui espaço. Será que, tal como o Casa das Artes de Miranda do Corvo, a obra fica pronta a tempo das eleições autárquicas?

segunda-feira, 11 de março de 2013

Uma chamada de atenção ao ministro das Finanças


Uma mensagem de uma leitora do Má Despesa Pública que, de uma forma simples, explica como se pode poupar no economato de uma escola.

“Exmo. Senhor Ministro das Finanças:
Sou tesoureira na Escola Secundária Daniel Sampaio em Almada, e como sabe o meu vencimento tem sofrido os cortes que o seu Governo acha necessários para ajudar a combater a crise que assola o nosso País.
No âmbito das minhas funções profissionais, tenho de informar o Ministério da Educação e Ciência, através do Portal de Compras Públicas, a agregação do economato para o ano económico de 2013. Depois de analisar o procedimento a que tenho de dar resposta, deparo-me com a seguinte situação: para comprar uma pen drive de 32GB, vou pagar através das ComprasMEC, 59,33€ se comprar no hipermercado perto da Escola pago pela mesma pen drive, exatamente com as mesmas características 19,90€. Ora este é apenas um exemplo, porque no procedimento de 90 páginas que tenho que agregar, existem muitas situações idênticas. Estando o País a necessitar de poupar muito dinheiro, não acha o Senhor Ministro, esta situação surreal?
Com os melhores cumprimentos.
Maria Teresa Rosa dos Santos Barquinha”

sexta-feira, 8 de março de 2013

Miranda do Corvo: a crise passa-lhe mesmo ao lado

                                                 Edifício da Câmara Municipal de Miranda do Corvo@Jorge Correia

Ontem o Má Despesa mencionou a Casa das Artes de Miranda do Corvo, a inaugurar em ano de crise profunda e de eleições autárquicas, e cujo valor (inicial) da obra ultrapassa os 2 milhões de euros. 
Hoje, é dia de falarmos de um jardim. No ano passado, a autarquia de Miranda do Corvo lançou o concurso público para a 1.ª fase da empreitada do parque das Moitas. Está em causa a construção do jardim da Paz, cuja empreitada tem um valor (inicial) de 566100.00 €.
Mais uma fita para cortar em ano de eleições autárquicas.


N.B.: As autarquias devem cerca de mil milhões de euros às empresas de construção.

quinta-feira, 7 de março de 2013

A doença autárquica do desejo de mostrar obra




«Construir uma Casa das Artes em Miranda do Corvo era um dos grandes desejos da autarquia. Fátima Ramos, presidente da Câmara Municipal, lembra, no entanto, que havia “outras obras prioritárias”, como “uma pré-primária e um centro educativo”, lê-se no jornal "O Despertar". E, apesar da existência de outras obras prioritárias e da crise que devasta o país, em 2013 este desejo da autarquia vai tornar-se realidade, por 2.075.000,00 € (preço inicial).
O concelho de Miranda do Corvo tem 13.098 habitantes (CENSOS 2011) . 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Gaiagate: Oito questões que precisam de ser respondidas (actualizado)


Esta terça-feira o Má Despesa Pública revelou que a Câmara Municipal de Gaia tinha adjudicado uma campanhade publicidade a uma jovem de 19 anos, pelo valor de 16.800 euros.

Dadas as circunstâncias deste contrato, consideramos importante esclarecer várias informações. O Má Despesa Pública enviou já ao presidente da Câmara de Gaia as seguintes perguntas, de forma a percebermos os contornos desta situação:
  1. Quais os critérios que levaram a esta contratação?
  2. Que outras entidades foram contactadas de forma a terem a certeza que a jovem em causa era a melhor escolha na relação qualidade/preço?
  3. Qual o portfólio da jovem em questão? Que outras campanhas de publicidade é que esta designer fez?
  4. Existe alguma relação familiar, ou de outro cariz, entre a adjudicatária e algum membro ou funcionário da Câmara ou de empresas municipais?
  5. Existe alguma relação entre o pai, a mãe ou outro familiar da pessoa em questão e a Câmara de Gaia?
  6. Existiram já algum tipo de pagamentos ou relações profissionais entre familiares próximos da adjudicante e a Câmara de Gaia?
  7. Quando é que a campanha em causa será tornada pública? Qual o objectivo desta campanha? O que pretendem divulgar? Como será divulgada?
  8. Que outras oportunidades de trabalho existem para jovens de 19 anos na Câmara de Gaia?
Ficamos a aguardar as respostas.

ACTUALIZAÇÃO 1
 
Resposta de Abílio Leite, Adjunto do Presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, entretanto enviada ao Má Despesa. Face à resposta, o Má Despesa tem de colocar mais uma questão:



“A Câmara de Gaia tem contratos periódicos, aliás de pequena monta, com várias empresas, visando a publicidade institucional.
O contrato em apreço, de pequeníssima monta para o volume publicitário desta Câmara, visou tornar do conhecimento público programa de apoio social “Projecto Gaia 2013, Menos Impostos, Mais Solidariedade, Mais Desenvolvimento”.
O mesmo deu origem a várias peças publicitadas, nomeadamente, em jornais diários, em sites institucionais bem como a um filme institucional para outdoor electrónico. Os preços praticados são, obviamente, os médios do mercado.
Toda a negociação foi feita com uma empresa reconhecida como idónea, a Webrand, que apresentou a proposta através de empresária em nome individual, subsidiária da mesma, Maria Catarina Pinto Ferreira Rocha.
Dado o currículo da empresa Webrand que negociou com o Município, e que é credível, não cabe à autarquia apreciar aspetos colaterais de empresas a ela associadas ou que lhe prestam serviços.
A campanha foi concretizada de forma cabal e competente.”


9.  A Webrand tem algum impedimento legal que impeça de contratar directamente com o Estado?

ACTUALIZAÇÃO 2

Resposta de Abílio Leite, Adjunto do Presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, às nove questões levantadas pelo Má Despesa

1. A Câmara negociou com a empresa webrand, empresa idónea no mercado, uma campanha, aliás, mini campanha em termos financeiros, para promover um programa de descida de impostos e tarifas e de apoios sociais.
2. A jovem em causa limitou-se empresária em nome individual a quem a empresa Webrand terá contratualizado o desenvolvimento do trabalho, operação a que a Câmara é alheia.
3. Só conhecemos o Curriculum da empresa Webrand, com quem negociamos, ignoramos o curriculum de outras empresas associadas ou prestadoras de serviço à Webrand.
4. Com o conhecimento do Município, obviamente, Não!
5. Obviamente, Não!
6. Não.
7. Já foi. Foi publicada em jornais diários, em revistas, em sites institucionais e em placards eletrónicos.
8. Face ao respondido anteriormente, esta questão não faz sentido.
9. A Câmara desconhece qualquer impedimento da empresa Webrand em contratualizar com o Estado.


terça-feira, 5 de março de 2013

Como Gaia combate o desemprego juvenil



O desemprego jovem não pára de aumentar em Portugal, mas de Vila Nova de Gaia surge um exemplo de como a autarquia está a ajudar a combater o flagelo. Por "serviços de assistência em matéria de design", a Câmara de Gaia vai pagar 16.800 euros por um trabalho de 90 dias que consiste em criar uma campanha institucional. Mais de 5500 euros por mês, portanto. A adjudicatária conseguiu este contrato apesar de ter apenas 19 anos. Um verdadeiro talento nacional do design.
Como relata um leitor do Má Despesa, que nos apresentou o caso, “realizei uma pesquisa intensiva no Google à procura de uma ligação entre o nome Maria Catarina Pinto Ferreira Rocha e design. Nada de nada. A única pessoa com esse nome é uma estudante de 2º ano da licenciatura de Ciências da Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade do Porto”.




segunda-feira, 4 de março de 2013

«O dinheiro não tem ideias»


"O dinheiro não tem ideias"
 (…)O meu Portugal formoso
Berço de latifundiários
Onde um primeiro-ministro
Já manda à merda os operários
Já hoje muito maroto
Se diz revolucionário
E faz da bolsa do povo
Cofre-forte do bancário(…).

Trata-se de um excerto da música Chula da Póvoa, de Zeca Afonso (1976) e eu não sou comunista. Sou portuguesa, pediram-me para falar de dinheiro e logo aquelas palavras me assaltaram. Nos tempos livres, sou co-autora do blogue Má Despesa Pública, no qual eu e o jornalista Rui Oliveira Marques (re)publicamos informação oficial sobre maus exemplos de gestão pública, de indevida afectação dos recursos de todos os portugueses por parte dos responsáveis pela gestão pública, considerada em todos os seus níveis. Mesmo em tempos de troika, é um erro considerar que dá trabalho alimentar um blogue com informação diária sobre má despesa pública portuguesa. Basta consultar o portal BASE-Portal Oficial dos Contratos Públicos - para perceber como a maioria do poder político esvazia, grão a grão, o saco alimentado pelos nossos impostos. A leitura do Diário da República permite esquecer, por momentos, que o Estado é pobre e vive de dinheiro emprestado, tendo em conta, p. ex., os concursos de empreitadas de obras lançados pelas autarquias, as nomeações governamentais que parecem não ter fim e, ultimamente, as inúmeras promoções de pessoal da área da Defesa. Depois, temos os relatórios e auditorias do Tribunal de Contas (TdC), documentos que atestam (se dúvida houvesse) a incompetência e irresponsabilidade do poder público no exercício das suas funções. Quando o TdC analisa aquisições de bens ou de serviços é fácil adivinhar algumas das suas (recorrentes) conclusões: “violação dos princípios da contratação pública, como a transparência, a concorrência e a boa fé”. E, infelizmente, o tribunal também detecta amiúde que “o interesse público não foi devidamente acautelado” por parte da entidade pública fiscalizada. Não olham aos meios, não olham às leis. A história é conhecida mas parece ser esquecida, com a ajuda da própria Justiça portuguesa - a melhor amiga dos políticos malfeitores.
Vivemos num país ao qual as Fundações consumiram mais de mil milhões de euros nos últimos 3 anos, que prevê ter encargos de 9,11 mil milhões de euros até 2028, só com as PPP rodoviárias, que comprou um banco (BPN) com um buraco financeiro que pode chegar aos 7 mil milhões de euros e que, não obstante, está a injectar mais de 1,1 mil milhões de euros num (outro) banco privado, o Banif. Fomos o único país europeu que reconstruiu/remodelou dez estádios para o campeonato europeu de futebol. Mais de mil milhões de euros de investimento público em estádios que estão às moscas (Leiria, Coimbra, Aveiro e Algarve) e que deixaram as autarquias endividadas por mais de duas décadas. O Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria, está à venda e não encontra compradores. Só em juros, consome quase 6 mil euros por dia aos cofres do Município. E da Parque Escolar nem consigo falar. Só a pequenez dos responsáveis nacionais justifica estas e outras obras públicas, como a marinha do Lugar de Baixo, na ilha da Madeira, que custou mais de 100 milhões de euros, foi inaugurada em 2004 mas continua inoperacional, a piscina olímpica que a câmara municipal de Braga decidiu ter mas cujo projecto teve de abandonar depois de nele torrar mais de 8 milhões de euros, o Jardim de Infância de Macieira, em Barcelos, de quase meio milhão de euros, que continuava fechado volvidos dois anos sobre a conclusão das obras porque foi construído no meio de um campo de milho sem acessos, o Centro Municipal de Canoagem de Águeda, com um custo de quase 400 mil euros, foi inaugurado em 2004  e um ano depois teve de fechar portas porque foi construído em cima de terrenos que não eram propriedade do Município. E depois existem outro tipo de despesas, de menor monta, mas que jamais deveriam existir como a viagem da mulher do presidente da autarquia de Boticas a New Jersey, EUA, paga pelos cofres da câmara municipal, ou os brinquedos que as autarquias e empresas públicas teimam em dar aos filhos dos seus funcionários, prática comum em Almada, Amadora, Oeiras, p ex., os pins de ouro que a CP continua a comprar. Nesta matéria, nunca devemos esquecer o exagerado número de veículos do Estado e sua utilização indevida, como o caso do Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Torres Vedras que tem direito a viatura e motorista particular para as suas deslocações diárias, entre Torres Vedras e Loures, onde reside. O motorista desloca-se de propósito de Torres Vedras a Loures todas as manhãs e à noite o motorista e viatura fazem o percurso inverso e voltam para Torres Vedras.   Como é óbvio, o motorista tem que fazer horas extraordinárias e, além do combustível, os custos de 4 portagens diárias na A8 também são pagos pelos contribuintes. Todos sabemos que Portugal está entregue a pessoas que, na sua maioria, encaram o serviço público como um meio de enriquecimento material e que não se coíbem de o esconder, como o recente caso da ex-directora da empresa municipal Águas de Santarém que se demitiu pouco tempo após ter tido conhecimento de uma ordem de serviço que proíbe a utilização dos carros de serviço para uso pessoal. Esta ex-dirigente pública utilizava a viatura de serviço nas suas deslocações diárias entre Santarém e Cascais, onde reside, apesar de auferir 4500 euros mensais.
Os exemplos de desperdício e má gestão do nosso dinheiro abundam apesar da informação disponível relativa às despesas do Estado se mostrar, não raras vezes, insuficiente e opaca. Nem todas as entidades publicam todos os contratos públicos no site legalmente destinado para o efeito (BASE), em clara violação da lei. Aliás, nesta matéria, o exemplo também não vem de cima, pois a própria Presidência da República não presta cavaco sobre a forma como gasta os cerca de 16 milhões de euros anuais que leva do orçamento de Estado. Sabe-se que emprega mais pessoas do que o Palácio de Buckingham e que conta com 52 viaturas de serviço. E quando publicam os gastos, muitas das entidades não o fazem no prazo devido, sem que para tal tenham justificação legal. Lisboa é nisto (péssimo) exemplo: a autarquia publicou os contratos de prestação de serviços dos assessores dos vereadores decorridos 3 anos sobre a respectiva adjudicação.
Sem transparência na gestão pública os cidadãos não sabem como o dinheiro dos seus impostos é aplicado e não podem exercer o seu poder/dever de controlo da gestão pública, exercício vital a uma democracia saudável. Um Estado pouco transparente é um bom ninho para a corrupção e esta é uma das causas do empobrecimento dos Estados e, consequentemente, dos povos. Em termos europeus, só podemos dizer que temos um Estado menos corrupto do que a Itália e a Grécia. O primeiro país tem máfia, o segundo encontra-se completamente desestruturado, desfeito institucional e socialmente. A corrupção e a crise andam de mãos dadas e Portugal está entre os países europeus que pior controlam a corrupção e não se vê o poder político a fazer algo de relevante utilidade prática para combater esta realidade.
Por outro lado, o combate do mau uso do dinheiro público também requer legislação transparente, de clara interpretação e exequível, o que não acontece na maioria dos casos e em matérias essenciais.  Uma legislação defeituosa a somar à cultura nacional de contorno e desrespeito das normas constitui uma excelente fórmula para a violação do interesse público por parte dos responsáveis pela gestão do país. E todos sabemos que as consequências da gestão pública danosa são poucas e o efeito prático delas é nulo. Os responsáveis voltam a ser eleitos e/ou nomeados. E nós ficamos calados/parados e, assim, tornamo-nos cúmplices de quem nos faz mal. Podemos fazer alguma coisa para mudar? Eu acho que podemos fazer tudo, a começar por perder o medo de apontar o dedo a quem empobrece o seu povo. À austeridade político-financeira que nos dão devemos responder com austeridade cívica, exigindo transparência governativa, leis decentes e a condenação da incompetência, da irresponsabilidade e da negligência no exercício de funções públicas. 
Aquilo que o país mais precisa o dinheiro não compra e somos todos responsáveis por arranjá-lo: políticos de bom senso. E já vamos tarde. 

Lisboa, 12.01.13
Bárbara Rosa

Texto integral para o jornal "O Espelho", #2, 02.03.2013


sexta-feira, 1 de março de 2013

Estudos para saber como reestruturar empresas municipais



A Empresa Municipal de Desportos de Barcelos pediu à MGI Consulting uma proposta de reestruturação da própria empresa municipal. Custou 7 mil euros. A Empresa Municipal de Educação e Cultura de Barcelos seguiu o mesmo caminho e pagou mais 10.500 euros. O Má Despesa está a pensar, graças ao know-how entretanto acumulado, em criar uma consultora para ajudar os eleitos e técnicos superiores a fazer o que, à partida, se esperava que estivesse dentro das suas competências, obrigações e conhecimento.